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RedeAngola.info

Jornalismo independente.

Caros Leitores e Leitoras,

Há cinco anos idealizámos o Rede Angola. Contra algumas opiniões, que variavam do comodismo ao pessimismo, fiz questão de desenvolver este projecto jornalístico focado na independência, seriedade e qualidade. Sabia que haveriam dificuldades, não institucionais mas sim pessoais. Ponderei sobre tudo e decidi que sim, que iríamos fazer um veículo de referência jornalística, sem interesses outros que não fosse o foco da nossa missão. Um projecto plural que representasse o conjunto da sociedade angolana. Nestes anos todos, do conteúdo à forma, nunca vacilamos diante do nosso objectivo.

Não podemos nos dizer surpresos com as dificuldades que foram surgindo no nosso caminho. Estávamos preparados para tudo. Menos para condescender com as práticas dos projectos editoriais que, por serem apenas ferramentas aoserviço dos seus donos, não são merecedores deste nome. Era preciso contrariar a leviandade instituída, os interesses escusos, o vale-tudo onde a mentira e as falsas interpretações são usadas para desmoralizar pessoas, promover achaques a empresas e políticos. Não são poucos os que cobram para publicar, ou os que deixam de publicar para passar uma graxa em busca de um favorecimento ou para desmoralizar o negócio de outro. Tratam o jornalismo como um negócio ao serviço dos proprietários.

Foi para dizer não a isso que nós chegámos.

Muitos disseram que seríamos reprimidos, como se o bom jornalismo fosse indesejado. E eu sempre afirmei o contrário. Sempre tive a certeza de que existia espaço para a independência do jornalismo em Angola. E assim o fizemos. Em nenhum momento, nestes anos, sofremos qualquer pressão, ameaça para publicar ou não publicar alguma coisa.

Por outro lado, não foi uma tarefa fácil, a falta de cultura de relacionamento com a imprensa se revelou totalmente presente no nosso dia-a-dia, foram centenas ou mesmo milhares de cartas a pedir entrevistas e esclarecimentos nunca respondidas. Mas, do ponto de vista da censura, nunca foi um problema para nós mesmo quando fizemos a primeira linha de informação sobre o episódio dos “revus”. É claro que, do ponto de vista pessoal, vários tentaram nos prejudicar para afirmar os seus interesses, mas nada disso abalou a nossa determinação.

Este ano completo vinte anos de Angola. Assistimos e ajudamos a escrever momentos que foram decisivos para a história desta grande nação. Atendemos ao governo, fazendo o melhor que podíamos e sabíamos fazer, sem poupar esforços nem recursos. Criamos e produzimos o programa Nação Coragem, o Ponto de Reencontro da Grande Família Angolana, o Angola em Movimento, a dupla Papá Ngulo e Chico Caxico, o Jukulumesso do Sebem e tantos outros. Foram trabalhos que efectivamente contribuíram para a sociedade. Para além do estritamente contratado pelo Governo, desenvolvemos muitas acções voluntárias, como uma contrapartida, uma retribuição às oportunidades que o país nos dava: fizemos o Quintal do Semba, primeiro dvd de música angolana; editámos livros de autores nacionais; gravámosdiscos como o Carlitos Vieira, Kituxi, Wyza, Pedrito do Bié, Paulo Flores, Elias Dia Kimuezo; demos a conhecer sobre os hereros em Angola com exposições pelo mundo; produzimos documentários sobre o país, o processo de independência, entre outros temas. Foram muitas realizações que debitámos à nossa responsabilidade social.

Nos últimos anos, infelizmente, o país se viu em meio à crise internacional e isso teve consequências para todos nós. As dificuldades não nos pouparam, mesmo com o apoio de vários anunciantes, entre os quais destaco especialmente a Unitel, uma empresa parceira que sempre apostou na relevância social e cultural dos nossos projectos. Mas chegamos a um momento em que a equação dos nossos compromissos e das dificuldades materiais que nos foram impostas ficou difícil de encontrar um saldo minimamente favorável ou sustentável.

Este projecto do Rede Angola, em particular, nunca chegou a ser autofinanciado. Sempre foi suportado pelo resultado de outros trabalhos desenvolvidos em Angola, Brasil e outros países onde temos trabalhado. Com a crise, reduzimos significativamente os nossos contratos, mas ainda assim insistíamos em manter o Rede no ar, por julgá-lo necessário e benéfico ao jornalismo de uma forma geral e ao ambiente democrático do país. Porém, mesmo com todos os cortes nas nossas despesas, chegamos agora a um ponto onde a prudência nos exige uma difícil decisão. As dificuldades são crescentes e nos impõe uma suspensão temporária dos nossos serviços.

Este não é o fim do Rede Angola. No que depender do nosso desejo e do nosso empenho, será apenas uma pausa necessária para nos reestruturar e voltar assim que nos for possível. Para aqueles que irão enxergar nessa interrupção o resultado de alguma pressão exterior, em razão da proximidade de mais uma eleição, esclareço que esta é uma decisão estritamente empresarial e pessoal.

Os nossos arquivos, que documentam um pouco da história de Angola nestes últimos anos, permanecem à disposição dos nossos leitores para serem consultados a qualquer momento.  Estarão acessíveis desde os conteúdos fixos, onde podem encontrar informações sobre Angola e os países africanos, até os vídeos, infografias, entrevistas, depoimentos e noticias, tudo facilitado pela nossa ferramenta de buscas.

Quero finalizar agradecendo aos leitores e a toda a equipa que esteve connosco nessa jornada. A cada colaborador, que fez desta também uma rede de amigos e companheiros, identificados pelos mesmos valores, o nosso muito obrigado. Juntos, fizemos história.

Até Breve,

Sérgio Guerra