Conversa sobre Moçambique e os territórios afectivos, vida de biólogo e escritor, Prémio Camões e como combater este modelo de desenvolvimento.
Duas horas com Mia Couto numa envolvente conversa que atravessa vários aspectos dos seus interesses e percursos. Como se chegou aqui, as geografias afectivas, Moçambique e os momentos de violência, a utopia da Independência, a diversidade de povos e seus modos de vida como inspiração para as histórias, o ambiente e o modelo de desenvolvimento a descobrir. Não é uma entrevista onde predomine o assunto literário, apesar do autor moçambicano desejar ter mais tempo para se dedicar à escrita. Pensando também em como levar o prazer da leitura mais longe e como ajudar a fazer surgir novos escritores.
É difícil. Antes era um problema, agora é uma angústia. Tenho de resolver isso, retirando tempo de algum lado. A questão não é ter mais tempo, pois inventamos o tempo que se tem, é mais ser um tempo nosso, que a escrita nos pede. Um tempo para estar com as personagens. É inevitável que transporte problemas, o que me faz ser menos disponível para as histórias.
Para escrever mais a tempo inteiro preciso de criar condições no meu trabalho para que possa continuar a dar assistência à empresa e trabalhar no mato como biólogo, que gosto muito.
Sim, o trabalho de campo é muito enriquecedor pelo contacto com a diversidade. Com este trabalho atravesso Moçambique de norte a sul, muitas vezes em tendas, próximo da vida das pessoas. Falo com elas e recolho histórias que são núcleos para outras histórias.
Essa religiosidade é uma espécie de chão comum, apesar de ter variantes. Sabe-me bem estar na região onde nasci. Alguma coisa me recorda das línguas que ali se falam, embora já não as fale, mas acredito que rapidamente conseguiria recomeçar. É curioso como é importante conhecer essa música de infância.
Na minha não mudou muito. Mas, claro, fiquei muito feliz com o prémio.
Alguma coisa tem de mudar na própria natureza do prémio. Pode contemplar um autor, claro, mas percebe-se que a nossa comunidade linguística é mais uma utopia do que uma coisa real. No Brasil, o Camões é pouco divulgado. Uma das intenções do prémio Camões era a de suscitar a curiosidade e divulgar a obra. Por exemplo, no caso do vencedor deste ano, Alberto da Costa e Silva, não se percebe porque é que a sua obra é tão pouco conhecida fora do Brasil. Este fundo deveria permitir que a obra dele fosse contemplada, que editoras a pudessem publicar e o escritor viajar. No Camões, deve ser importante a obra não especificamente o autor. Há prémios que se organizam num sentido mais formal e de reconhecimento, mas outros organizam-se para que jovens e alunos conheçam a obra. Quando há festa, toda a gente nova que está empenhada participa. Festa é isso, é um processo, não só um momento.
Acho que sim, alguma coisa tem de mudar. Mas é também uma preguiça nossa. Os escritores têm de brigar mais, não se pode abdicar e dizer “são eles”. Estamos numa posição estranha, deixamos que as iniciativas sejam daqueles de quem dizemos mal, dos políticos etc. Temos de ocupar esse espaço.
Acho que tem de haver uma aprendizagem. Este projecto ou é de todos ou vamos ter Institutos Camões como institutos de Portugal. É preciso que exista uma instituição da lusofonia suportada por todos. Porque é que no júri do Camões estão Portugal, Brasil e África em conjunto? Não é justo. Mas a verdade é que os países africanos nunca deram um passo em frente para dizer que também queriam participar. O que custa a Angola e a Moçambique participar? Estão só numa posição de reclamar. Preocupa-me que Moçambique tenha uma posição menos ambivalente, menos de queixa. Mesmo em relação à língua. Depois destes anos todos, a língua portuguesa ainda é vista como a língua dos outros? Ou se assume e vamos tratar dela como coisa nossa, ou não se pode pedir aos portugueses que tenham acções em relação à língua como se fosse deles.
Sim, mas é um pouco um fantasma. A língua portuguesa não tem comparação com o que era, no tempo da independência só 4,5 % dos moçambicanos falavam português, hoje, nos centros urbanos, já são 40% a tê-la enquanto língua materna.
É um pouco hipócrita, publicamente toda a gente faz um grande discurso sobre as línguas indígenas, mas isso implica trabalho e financiamento, e não está a acontecer nada.
Acho que é sobretudo uma grande preguiça. Como sempre, está-se à espera que o mundo venha resolver, se não há fundos… não há prioridades.
Entre outros, o Agualusa, o Ungulani Ba Ka Khosa, o João Paulo Borges Coelho ou o Ondjaki.
A guerra em Moçambique ajudou a destruir a ligação, que já era tão frágil, à escola, e as pessoas só tinham contacto com a língua portuguesa através do livro. Houve uma geração que foi sacrificada na relação com a leitura e o livro. Nas cidades talvez não tanto. Agora estão a ressurgir valores, e é curioso que Moçambique retoma a espécie de natureza mais ligada à poesia – como Angola, mais ligada à prosa – e há muitos jovens promissores no domínio da poesia. É que os escritores nascem de outros escritores, as ideias nascem de onde há ideias. Lembro-me da geração do Ungulani Ba Ka Khosa, frequentavam a esplanada do Charrua, Goa, das cervejarias, debates, tertúlias em Maputo, o café Scala, onde se reunia o Rui Knopfli e o Craveirinha, isso agora não existe.
Sim, e não existindo esses espaços, os jovens estão desamparados. Não há semana que não me apareça um com um papel: “Ó Mia Couto, veja lá isto!” Na nossa família tivemos a ideia de criar uma fundação com o nome do meu pai – que morreu o ano passado – ele teve uma editora, queria fazer escritores, trabalhava muito com jovens. Foi agora aprovada no Conselho de Ministros e pus parte do dinheiro do prémio de maneira a que haja como acolher esses jovens, oficinas de escrita etc. Existem pessoas que criam grupos de trabalho, clubes de leitura, há uma grande vontade de quem ama os livros para fazer coisas, mesmo que não se saiba como.
Sim, sobre o Gungunhama mas entretanto fui atropelado por um livro de poesia. É sistemático, sempre que estou a fazer um livro de prosa só me aparece a poesia.
A poesia diz “olha lá, que não sais daqui”. Mas funciona, com essa emanação da poesia a história que quero ver fica limpa .
Sentia-me muito sufocado, de repente parecia que aquilo tinha uma só dimensão, engraçada, bonita, da qual não me apetecia ficar prisioneiro. Não quero fazer um exercício estilístico, quero contar uma história e aquela história pedia aquilo. Quero surpreender-me. Nunca vou fazer uma coisa puramente realista, não sou desse estilo.
Nisso, de facto, sou mesmo moçambicano, nós não falamos directamente, não conseguimos dizer não, andamos às voltas, em discursos concêntricos, até chegarmos a algum lado. A distância da guerra talvez me ajude, ela foi tão cruel que, para falar dela, da maneira que me tinha ensinado, tinha de fazer de conta que não a aprendi, precisava de manter uma certa elegância metafórica para conservar o meu lado poético perante uma coisa tão cruel. Haverá histórias que pedem para dizer as coisas puras e duras como elas são. Mas tenho dificuldade, agora a escrever o Gungunhana volto a confrontar-me com coisas que foram muito violentas. Tenho uma relação muito difícil com a violência. Quando me ofereci para a Frelimo, felizmente havia aqueles que não tinham de lidar directamente com a violência, senão não sei como iria fazer.
Não me interessa ter razão, não tenho apetência para esse tipo de poder, de marcar uma posição, dar um murro na mesa. Se entro numa discussão é à maneira chinesa, simplesmente para sugerir que pode haver outra maneira de olhar para as coisas.
Eu retiro-me, há uma sabedoria de evitar o confronto que não tem a ver com a falta de coragem.
Não, se nos colocarmos no território de ganhar, vamos suscitar no outro apetites enormes numa vida onde se perdeu quase sempre, e as pessoas agarram-se a esses pequenos triunfos. Se conseguirmos retirar o assunto do território da disputa é mais fácil convencer as pessoas de que há outros modos de olhar. Dou-me bem com esta forma de fazer guerras. O provérbio chinês “o general que ganhou a guerra sem fazer nenhuma batalha” é um lema da minha vida.
Como ver e dar resposta a isso é uma das grandes questões nestes territórios. Por exemplo, fiz uma intervenção numa escola, e surgiu a questão do transporte de trabalhadores em carrinhas de caixa-aberta como se fossem gado, o seu perigo e etc. Mas as pessoas, com rapidez e certeza, acham que é assim e que deve continuar a ser. Mas o meu discurso foi repetido passou a olhar-se para isso de outra maneira.
Vejo com alguma preocupação, por perceber que uma certa elite moçambicana olha para Angola como modelo do ponto de vista dos comportamentos, economias, gestão da sociedade, o lado fashion. Os angolanos passam férias em Moçambique e vêm buscar namoradas, há um certo fascínio. Claro que Angola não é só isso, há muitas Angolas.
A minha preocupação é ler bons livros. Angola ao mesmo tempo é um país muito curioso para nós porque tem algo que nunca tivemos: um grau de urbanização mais apurado, muito mais consolidado e antigo. Como a literatura é um fenómeno da cidade, Angola tem de facto uma literatura mais sedimentada que a nossa, tem várias gerações, é resultado de sociedade crioulas. É uma experiência que gostava de visitar em Angola.
O fenómeno do português ser a língua principal interessa-me, como os vários traços sociais que manejam a língua, como a tornam plástica.
Essa dualidade está mal desenhada. Não sei está relacionado com este modelo de desenvolvimento, se há outros mais felizes. Talvez seja uma coisa utópica, mas não deve deixar de ser dita e pensada. Acabamos por aceitar como modelo único possível. Pode haver problemas ambientais, mas as grandes questões são de ordem social: como são desarrumados os modos de vida, culturas inteiras arrancadas do seu habitat social e histórico. A solução não pode ser deixar como está. Existe a ideia irrisória de que as coisas estão bem porque as comunidades estão lá, mas elas estão dentro deste modelo e são empurradas para modos de sobrevivência muito agressivos.
Por exemplo, nesses mangais, os viveiros dos peixes estão a ser assaltados pelas próprias comunidades que precisam de sobreviver e pescam com redes-mosquiteiro, cortam onde antes não cortavam. Dantes havia gestão e códigos próprios, e até zonas sagradas que eram poupadas.
Obedece a modas. Os biocombustíveis eram uma palavra de ordem e não chegou a acontecer com a dimensão que se pensava. Mas a questão está lá, mesmo em menor grau.
Isto é quase uma questão psiquiátrica, é preciso dizer a estas pessoas como é que se pode combater, mas de maneira a que não surja como um fantasma, para não parecer: “estes tipos estão a travar o desenvolvimento, estes tipos não olham pelo seu país, estão a impedir que as pessoas saiam da pobreza com este discurso”. Até em nome dos próprios povos se acaba por empurrá-los para uma situação sem saída.
É preciso ter alguma criatividade e perceber que há um momento em que se tem de negociar. Por exemplo, com os mangais, se dissermos “é preciso defender a biodiversidade” não vamos ter sequer a adesão das comunidades, a biodiversidade é um conceito abstracto. Outra coisa é alertar aqueles que mandam na economia – que não são, obviamente, só os nacionais – e falar na língua deles, no economês: “Se se perde o mangal, perde-se o camarão”. Uma das principais exportações do país acaba por estar em risco. Alertar que as próprias lógicas de rentabilidade desse modelo ficam em risco com esta maneira selvagem. Não faço parte de ONGs, algumas são sérias mas a maior parte vivem de retro-alimentação, podem ser empresas disfarçadas, são discursos que se repetem. Um discurso alternativo que possa surgir tem de ganhar espaço e tempo, ter possibilidade de recuo táctil. Sem esse diálogo não funciona, não sabem a tua língua, não pensam da tua forma.
Sim, com o risco de ser acusado de transigente, demasiado aberto, evitando o confronto. Se acho que isto tem de mudar radicalmente? Sim. E o que tenho a sugerir? Não sei, mas há coisas que se pode ir pensando. Por exemplo, aquilo a que chamamos “recursos”. A palavra está errada à partida, significa que se está a legitimar uma ideia de que aquilo que lá está, seja renovável ou não, existe em função da nossa necessidade. Como se a espécie humana estivesse feita para fazer uso disso, credenciada por uma ordem qualquer divina.
E a maneira como nós chamamos, recursos humanos. São pessoas!
As empresas de impacto ambiental são pagas pelo próprio cliente, pode-se questionar a idoneidade deste processo, sim. O que seria correcto era as empresas pagarem ao Estado, que constituía um fundo, que indigitasse uma empresa que estaria à vontade para chumbar uma empresa. Percebemos que isso é uma limitação. Há casos que não aceitamos à partida, e outros que chumbamos ou obrigamos a redesenhar.
Ainda está em andamento.
Os projectos de plantio têm regras estabelecidas pelo Banco Mundial para ser seguidas. Hoje acredito que esses critérios são dos mais bem construídos, do ponto de vista técnico, para defesa do ambiente. Se fossem respeitados estaríamos bem melhor. O que falta é a capacidade de controlar e fazer alguma fiscalização. A Portucel teve que redesenhar o seu próprio projecto. Onde as comunidades não querem, nem onde há florestas nativas eles não entram, há uma contenção.
Um pouco, na luta para aproveitar zonas de fractura para poder ocupar terreno.
Parece que é uma coisa muito filosófica – e sou um homem que vem de uma cultura misturada -, noto que para mim foi muito benéfico ter aprendido a necessidade de harmonia com os outros, com o espaço, o convívio com os mortos etc.
Ou como uma coisa que não tem nome. Uma das dificuldades que tenho no campo é dizer que sou biólogo e estou a trabalhar na natureza. Não tem tradução para as línguas locais.
Com este lado mais holístico e a compreensão humana, parece que também andamos à procura. Mas estas pessoas já vivem num certo entendimento daquilo que as circunda. Com uma certa religiosidade mais permissiva, que não se guia pelo Livro, seja ele qual for. Há uma relação que me parece mais livre entre o corpo. As pessoas parecem mais felizes.
Mas isso é o logro que faz com que as pessoas que vivem em sistemas rurais, na pobreza, muito carentes, acreditem que esse modelo dá resposta a tudo. Essa é a ilusão, de que para terem água, energia ou infra-estruturas têm de pagar e engolir a pastilha toda. Não sei se haverá uma maneira de fazer diferente.
O problema é que quem não tem torneira, não quer ter só a torneira, quer ter a casa e outro tipo de vida. É como dizer a um filho para não namorar com determinada pessoa. O direito a fazer a aprendizagem, a ter opções, tem de estar lá. A grande esperança destes países está em gerações que possam ter algum distanciamento crítico em relação ao próprio país, gente que sai e olha para Moçambique de outra maneira.
Percebem que há outras coisas, que estas sociedades não são felizes. É uma questão de tempo.
Podemos explicar desta forma: predomina uma sabedoria antiga de sociedades que não tinham Estado, nem instituições mediadoras para a violência. Resolvia-se pela via das famílias, dos chefes tradicionais, etc. Quando chegámos à Independência, muitas das comunidades ainda estavam assim, o Estado colonial era muito frágil, só localizado nas cidades. No pós-independência, também se manteve frágil, não teve tempo, houve a guerra. A mentalidade é “eu não me vou expor, nem vou criar um conflito com o meu vizinho se não tiver a certeza de que vou ganhar.” Na Europa é fácil: tenho um problema, vou à polícia, acredito que há tribunal, uma força mediadora. Aqui não, a pessoa não expõe a sua opinião, e não vai arriscar individualmente, só fala quando pode gritar ou quando se está em maioria. É a explosão que acontece.
O indivíduo está feito para negociar, entrar em consenso. Os moçambicanos recebem bem, não conseguem dizer não, algo muito oriental. Como é que este mesmo povo, tão cordial, fez uma guerra com um milhão de mortos? Mas acontece, não quando é gota, mas quando é onda, gota somada a gota.
Primeiro receio: haver outra vez guerra é inaceitável. É difícil imaginar, quem viveu 16 anos de guerra nunca mais quer guerra. A grande força que une os moçambicanos é precisamente “não queremos guerra”.
Existe alguma ambivalência. Não culpo o governo porque acho que se estivesse a governar não iria aceitar esta chantagem da força. A primeira coisa é que a Renamo tem de se convencer a ser um partido político. Se lhes pedem para entregar as armas e não entregam, tem sentido então utilizar a força para tirar aquela gente da via da violência. Eu próprio estou dividido, nas negociações, a Frelimo foi fazendo cedências e não me parece que se possa continuar a ceder só de um lado, principalmente porque agora o discurso da Renamo é que, em nome da despartidarização do Estado e das Forças Armadas, quer uma partidarização a meias. E eu como cidadão também quero ser consultado.
Sim, mas que o façam de outra maneira, todo o argumento é discutível. A Renamo tem assento no parlamento. É uma coisa esquizofrénica: acontecem ataques, estão a morrer pessoas e os tipos sentados a discutir a lei do Orçamento ou qualquer coisa como se fosse noutro país. Portanto, pode-se acusar este governo de muita coisa, mas não de falta de tolerância. E sendo que isto é intolerável.
Acho que tem mais a ver com o Dlakhama perceber que é a última vez que se pode candidatar, é um processo pessoal. Acredito que na própria Renamo haja gente que também discorda desta via.
Sim, e a atitude do cidadão que perdeu o medo de falar e dá a cara. O risco de alguém que se assume como cidadão, estou aqui e digo o que tenho a dizer, é muito recente. É um avanço, e está a causar medo. Mas é isso ou 2010 com jovens a partir tudo. Essa fase de manifestação serviu de grande aviso, e depois começaram a acontecer coisas no mundo.
Sim. Há pouco tempo também, uma manifestação de 20 mil pessoas, com elegância, organizaram-se e mostraram um grande grau de civismo. Até então uma manifestação significava partir tudo, e esta foi um grande exemplo.
Desse ponto de vista não tenho vergonha do meu país. Há uma atitude civilizada do governo que aceita. Obviamente que há intimidação, mas é feita num quadro que hoje é comum em todo o lado.
Foi o grande sonho da minha vida. Mesmo quando a Frelimo me pediu para abandonar o curso de Medicina, e eu naquela altura queria mesmo ser médico, psiquiátrico…
Porque se pensava que havia poucos jovens capazes de infiltrar-se nos órgãos de informação dos portugueses, quer dizer, portugueses de extrema-direita. E isso tomava-me o tempo todo. A ideia era que eu ficasse um ano, mas fiquei doze. Foi um tempo muito feliz, de grande generosidade, estávamos todos muito empenhados num país, um mundo e homem novo. Os principais erros dessa altura deveram-se à grande ingenuidade, uma simplificação do mundo. As coisas são mais complexas.
No princípio não, quando havia dúvidas o argumento da guerra fazia suspender essas questões, estava envolvido numa coisa maior. Em 85 pensei “já não acredito”, e tinha uma grande urgência sair.
No próprio momento percebi alguns grandes erros que ele cometeu. Eu era director de um jornal e nessa condição assistíamos às reuniões do Comité Central. Era o modo dele nos envolver naquilo que chamava o “Pensamento Comum”, que eu não percebia que era o pensamento único. Mas havia uma certa confiança, éramos envolvidos no processo. Havia coisas muitos grandiosas e violentas, sim. O meu amigo Carlos Cardoso foi preso a mando do Samora. Eu próprio seria preso se não fosse a poesia. Chamavam-me e diziam “ah, ele é poeta”, como se fosse assim uma doença. O Samora tinha uma visão, uma entrega aos outros e uma sensibilidade que o fazia ser ele, não estava auto-centrado, queria saber de cada um.
O direito e o esquerdo.
Sim, ele tinha a noção de que era preciso construir uma nação e isso nasce de uma narrativa, por via da rádio e da imprensa. A primeira coisa que ele pensava era nos órgãos de informação, nos jornalistas, se havia meios. Era o primeiro a saber tudo, onde vão dormir, etc. Era formidável, vinha visitar-nos a saber se tínhamos comido e se estávamos bem.
Havia a preocupação de descentralizar, criaram-se redes de correspondência populares. Era gente muito humilde. As primeiras notícias que chegavam à Agência de Informação eram impressionantes, distribuímos bicicletas para virem entregar as notícias. A ideia era o país reconhecer-se nas suas diferenças.

Annie-Coelho/RA
Luta para não se reconhecer morta. A Beira era um porto que servia as economias do interior, através do seu corredor, sendo a sua razão de ser o Zimbabué. A Beira entrou em decadência, e até que o Zimbabué volte a ressurgir das cinzas… Uma hipótese seria servir de escoamento ao carvão que se está a descobrir em terra, mantendo a vocação de linha de saída. Por outro lado, o carvão também foi uma história cor-de-rosa que não acabou bem.
Tenho um primo e amigos. Por ser filho da terra, na Beira sempre me cobram para lançar os livros primeiro lá. Sinto essa obrigação. Eu e os meus irmãos juntámo-nos para reabilitar a escola primária onde estudámos. Demos livros para a escola secundária. Aquela cidade deu-nos muito, fui muito feliz por lá. Apesar do período difícil de quando comecei a perceber o mundo, foi na Beira que despertei para essa consciência.
Das férias nas montanhas do Rovuma, perto do Zimbabué, aquilo era a ausência quase absoluta do medo. Nós ficámos durante um mês, nas férias grandes, acampados nessas montanhas. Não havia telemóveis, os pais não sabiam nada de ninguém, mas não lhes passava pela cabeça que pudesse acontecer algum mal. Esse mundo já acabou.
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