O escritor nigeriano conta-nos sobre a memória afro-americana em Nova Iorque.
“É difícil viver num país que apagou o nosso passado”, diz uma personagem no romance Cidade Aberta, de Teju Cole, recentemente publicado em português pela editora Quetzal. É possível que os escritores tenham um papel tão importante em reinvindicar a memória quanto os historiadores. O que faz um jovem nigeriano-americano falar sobre Nova Iorque e o 11 de Setembro, sobre Bruxelas e radicais muçulmanos, sobre Gustav Mahler e índios dizimados? Essa é a pergunta errada. A pergunta certa é: porque é que um jovem negro não haveria de falar sobre todos os assuntos contemporâneos? Porque é que nunca nenhum jovem negro escritor o tinha feito antes, pelo menos desta maneira?
O início em duas palavras – “E portanto” – e o final inconclusivo fazem de Cidade Aberta um livro que parece continuar antes e depois da primeira e última página. A intriga, essa, conta-se numa frase: um médico nigeriano faz o internato de psiquiatria em Nova Iorque e caminha pela cidade conhecendo-lhe cantos e personagens que o fazem reflectir sobre literatura, música, história e sobre a própria natureza da memória, tanto pessoal como colectiva. James Wood, crítico de uma das mais importantes revistas norte-americanas, a New Yorker, escreveu sobre Cidade Aberta que era o mais parecido com um diário que um romance podia ser.
Cidade Aberta, lançado nos Estados Unidos em 2011, projectou Teju Cole, que até aí só tinha publicado um livro na Nigéria, para a lista dos escritores mais promissores de língua inglesa. Tem 39 anos e vive entre Nova Iorque e Lagos. É sobre Lagos o livro que agora está escrever, um retrato de uma cidade tão complexa quanto Nova Iorque, ao ponto de parecer uma nação dentro da nação que é a Nigéria.
De certa forma, todas as grandes cidades têm vida própria e precisam de ser tratadas como se crescessem dentro de um prisma, as diferentes facetas brilhando e apagando-se consecutivamente, disponíveis apenas aos mais atentos e dedicados observadores.
Em Cidade Aberta, o jovem negro Julius, o protagonista criado por Cole, percorre a cidade mais multicultural da história ocidental recente. Nova Iorque é uma cidade onde, mais do que serem visíveis as diferenças, são óbvias as semelhanças: num táxi, um afro-americano chama-lhe “irmão”. Numa estação de correios, enquanto o atende, um funcionário negro recita-lhe algo que escreveu: “Nós somos aqueles que foram escorraçados. Nós, os saqueados, nós os esmagados. Mas inconquistáveis. Nós, que carregamos a nossa própria cruz por entre os canaviais. Então, estás a captar? E os nossos amigos e os nossos parentes tratados como animais. Nós, das perdas essenciais e horrorosas, assaltados por forças dolorosas, desviados do rumo por intenções maldosas, nós, vozes silenciosas. E mesmo assim inconquistáveis. Estás a seguir-me? Ao longo de quatrocentos e cinquenta anos. Cinco séculos de lágrimas e danos, um medo eterno na cara dos africanos. Mas continuaremos a ser sempre, sempre, sempre os inconquistáveis.”
No consultório, um afro-americano mais velho agradece a Julius o simples facto de estar ali, o facto de ele ser um negro a dar uma consulta: “Sr. doutor, eu só quero dizer-lhe como me sinto orgulhoso por ter vindo para aqui e por ver um jovem negro como você vestido com essa bata branca, porque para nós as coisas não têm sido fáceis e ninguém nos deu nada por que não tivéssemos lutado.”
Todas as cidades são palimpsestos, camadas sobre camadas sobre camadas de pessoas que viveram antes, de histórias esquecidas. As cidades são talvez os mais preciosos textos que os homens foram capazes de escrever e o livro de Cole é quase uma ode a essa ideia de que uma cidade não é apenas uma cidade e um mapa não é apenas o mapa de um território específico. Outra maneira de dizê-lo é que a parte sempre contém o todo, que em cada pedaço pode-se ver o mundo inteiro.
Numa entrevista por email ao Rede Angola, Teju Cole confessa que em Cidade Aberta quis mostrar uma espécie de rede de ligações, em que o Oceano Atlântico é o denominador comum: esse triângulo, ou mesmo quadrado, que une o desenho desequilibrado da civilização, e junta África, América do Sul, América do Norte, Europa.
“Penso no Atlântico negro como num enquadramento onde cabe muito do meu trabalho”, diz. “A costa atlântica de África foi a região de onde vieram muitos dos escravos e Nova Iorque foi uma grande beneficiária desse comércio. Em relação a Bruxelas [por onde também passa Julius no livro], é uma cidade construída por trabalhadores congoleses que não foram pagos por isso. A relação entre o trabalho negro e a prosperidade branca é realmente uma presença permanente na minha obra”, diz.
Julius passa grande parte do seu tempo livre a caminhar e podia, naquelas horas nas avenidas de Manhattan, galgar o mundo inteiro. Num dos seus passeios na baixa nova-iorquina, por perto o gritante vazio do Ground Zero, onde antes se ergueram as Torres Gémeas, passa por um pequeno espaço de relva que está inteiramente rodeado de prédios. Numa placa, a informação necessária, explicando que ali existiu um cemitério de africanos, num tempo em que os negros até na morte eram descriminados, enterrados à parte. “O minúsculo pedaço de terra fora preservado para representar um lugar que, nos séculos XVII e XVIII, fora de grandes dimensões, com uma área de três hectares, aproximadamente, prolongando-se para norte até ao que é hoje a Duane Street e para sul até ao City Hall Park”, escreve Cole em Cidade Aberta. “Nesta terra foram sepultados os corpos de quinze a vinte mil negros, a maioria escravos, mas depois puseram-lhe edifícios em cima e as pessoas da cidade esqueceram-se de que tinha sido um cemitério.”
Julius passa várias vezes pela vista de Manhattan debruçada para a Estátua da Liberdade, trazendo de imediato o imaginário de barcos a chegar à terra onde os sonhos podem, ainda que não tornar-se realidade, pelo menos serem sonhados. Os italianos, os irlandeses, os judeus de várias línguas europeias, chegavam com o seu direito ao sonho americano. Na base da figura com o archote, estavam versos prometendo segurança aos pobres e aos apátridas, que tinham sido escritos por uma mulher, filha de um descendente de novos-cristãos portugueses; mas os negros quando tinham chegado, não tinha sido sequer com a pompa da esperança.
Teju Cole nasceu nos Estados Unidos mas cresceu na Nigéria. Mais tarde, regressou aos Estados Unidos. O seu trabalho espelha essa mistura de culturas e de identidades; seria talvez impossível sem essa dualidade. E seria talvez impossível ter sido escrito há 15 anos, isto é, no século passado.
“Comecei a trabalhar no livro em Novembro de 2006”, conta. “Há muito tempo que queria pôr no papel algumas ideias e pensamentos sobre o 11 de Setembro. Não queria escrever directamente sobre o evento, mas olhar para ele de forma mais indirecta. E foi no final de 2006 que finalmente apareceram a abordagem certa e as palavras certas. Então, comecei a escrever e a escrita levou-me cerca de três anos.”
Pouco antes disso, um jovem negro, Senador eleito pelo estado de Illinois e opositor da intervenção americana no Iraque, tinha chamado à atenção durante uma Congresso do Partido Democrata, com um discurso de uma retórica tão inspiradora que parecia vir de outros tempos, dizendo que os Estados Unidos poderiam ser realmente, verdadeiramente, unidos; pouco depois, esse mesmo Senador era nomeado candidato democrata à presidência dos Estados Unidos e ganhava.
“É verdade que há uma ligação consciente da minha parte entre Julius e o então Senador Obama, tal como há, para mim, entre Julius e Hamlet (em comum têm o pai que morreu, a mãe de quem está separado, a namorada distante, e uma melancolia e tendência para pensar demasiado). Essas são as várias camadas inerentes ao texto.”
Quando Cidade Aberta é publicado, em 2011, Barack Obama era Presidente dos Estados Unidos da América desde 2008, o primeiro presidente negro do país, e já muito se tinha debatido, não só sobre o enorme caminho feito para diminuir a desigualdade entre brancos e negros na América, como se tinha falado abrangentemente e de forma quase inédita sobre a mistura de raças e identidades, sobre como isso era uma realidade inescapável no novo século.
Como Barack Obama, o protagonista de Cidade Aberta é filho de um homem negro africano e de uma mulher branca (no caso de Julius, uma europeia, uma alemã carregando de certa forma o mal europeu, o trauma da Segunda Guerra Mundial). E embora Teju Cole seja filho de dois nigerianos, ele é também um produto de uma mistura que já tem pouco a ver com raça.
“Sinto-me ambos: nigeriano e americano. Hoje em dia isso já não é nada de estranho”, diz. “E tanto os meus leitores nigerianos como os meus leitores americanos já não ficam confundidos por esta minha dupla herança.”
Diz que é sempre o mesmo Teju Cole, quer esteja em Nova Iorque quer em Lagos, e, num caso e no outro, os leitores parecem agradecer o facto de não ter medo de falar dos assuntos mais desconfortáveis.
E também é o mesmo Teju Cole o ensaísta que escreve sobre artistas (a sua formação é em História da Arte) ou o fotógrafo que faz projectos pessoais com imagem. Pode ser pouco usual essa diversidade de modos de olhar e de criar mas, no fundo, trata-se apenas de procurar incessantemente contar histórias: “Até para tirar fotografias é preciso ouvir, ter uma ideia do que é que uma situação nos pode transmitir, e que parte dela vale a pena registar”, explica. “Quanto mais tempo passa, mais encontro ligações fortes emocionais entre os vários aspectos do meu trabalho. Para mim, pelo menos, parece-me sempre o trabalho de uma pessoa só.”
O próximo livro dele, sobre Lagos, não será uma ficção mas manterá, desvenda, o tom semelhante ao de Cidade Aberta: descreve-o como “ensaio lírico”. Faz lembrar a obra do escritor alemão, desaparecido em 2001, um escritor ainda do século XX, W. G. Sebald, uma das influências mais óbvias de Cole. Sebald era também um escritor-caminhante, trabalhava principalmente sobre a Europa e a memória silenciosa, mas insidiosa, do Holocausto e das ruínas da Segunda Guerra Mundial. Trabalhando sobre África e a América e a memória sufocante de séculos de desequilíbrio de poder, o tema que percorre Cidade Aberta é muito semelhante: o da continuidade da história ou da impossibilidade de esquecimento ou mesmo cura. O que o trabalho de Cole parece dizer é que nada se perde, tudo se transforma – para o bem ou para o mal, depende de nós.