OPINIÃO

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António Tomaz

O Grande Kilapi

18.06.2014 • 00h00 • atualizado às 08h15

Foi notícia muito recentemente que o BESA (Banco Espírito Santo Angola), a sucursal local do BES (Banco Espírito Santo) foi desfalcado em cerca de 525 milhões de dólares, que são simplesmente um décimo dos 5,7 mil milhões de dólares que o banco emprestou sem proceder ao registo de quem recebia estes valores.

Isto é mesmo muito dinheiro. Só para ter uma ideia isso é mais do que o Estado angolano gasta, todos os anos, em sectores como a Saúde e Educação. E vale mesmo a pena fazer esta comparação porque, ao que se sabe, será o Estado angolano a pagar a dívida.

Pelo que li, do muito pouco que se escreveu sobre este escândalo financeiro, parece que estamos aqui perante uma nova forma de defraudar o Estado. Também aqui houve sofisticação. Já não se trata aqui de ir ao banco, como se fez à Caixa Agro-Pecuária (até agora, ao que parece, o maior escândalo financeiro em Angola desde a independência) e levantar valores em formas de empréstimos que nunca foram pagos. Afinal a Caixa era do Estado. E o que se estava a fazer era apenas transferir recursos das contas do Estado para bolsos privados. Ninguém prestou contas, ninguém foi preso por isso, e a Caixa faliu. E foi a seguir extinta, em 1999, como se nada tivesse passado.

Desta vez é diferente. É mais ou menos o que os americanos chamam “bail out,” quando o governo vem em socorro de bancos e outras instituições financeiras, todas, certamente, privadas, porque são “grandes demais para falir.” E como o BESA é grande demais para falir, o governo angolano já assinou uma garantia soberana em como vai ressarcir o banco do prejuízo. Acontece que os empréstimos foram feitos com o mesmo fundamento, tácito: o tal projecto de constituir uma burguesia nacional através das transferências de valores públicos para contas privadas.

O Estado, como no “bail out”, só aparece depois. O capital vem do estrangeiro, ou pelo menos é de um banco estrangeiro. É, portanto, dinheiro privado. É emprestado a privados também. Mas, os valores não são devolvidos (pela simples razão de que os funcionários do banco nem sequer se deram o trabalho de registar os nomes das pessoas a quem se emprestava dinheiro). E aí o Estado entra. Parece que o Estado está a salvar o banco, e com isso salvar a economia angolana. Mas o que se passa na verdade é uma transferência de capitais do Estado para privados, através de intermediação de capitais estrangeiros. Ainda não temos uma bolsa de valores, mas já fazemos parte da grande finança internacional.

A isso os angolanos chamam Kilapi. Palavra do kimbundu que, na origem, quer dizer venda a crédito, e que faz alusão ao registo de dívidas. Na nossa economia informal quer simplesmente dizer levar produtos sem entregar a correspondente parte financeira. Eu chamaria a este escândalo o “Grande Kilapi.” Grande mesmo, comparado com os pequenos roubos do tal funcionário das finanças coloniais que serviu de mote para o filme de Zezé Gamboa, “O Grande Kilapi”.

Tudo isto anda a pedir uma compilação dos grandes kilapeiros de Angola. Álvaro Sobrinho, o responsável do banco pelo lado angolano, terá uma posição de honra nessa lista. Terá o nome ao lado daquele que é, muito provavelmente, o maior kilapeiro de todos os tempos, o famigerado Alves dos Reis, português que nos anos 20 decidiu “investir” em Angola, passando antes pela Inglaterra onde mandou “fazer” milhões de escudos que foram postos em circulação. Este dinheiro criou uma taxa de inflação nunca antes vista, e há grandes razões para inferir que existiu uma relação entre a intranquilidade social que tal inflação criou – uma vez que as pessoas deixaram de poder comprar bens básicos com as notas que tinham – e o golpe de estado militar de 1926, que acabou com os anos da república em Portugal, processo que, como é sabido, trouxe as longas dezenas de anos de ditadura em Portugal, cujo maestro foi o não menos famigerado António de Oliveira Salazar.

Crónicas Luísa Rogério Luanda. É jornalista, Secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos e vice-presidente da Federação Africana de Jornalistas. Crónicas Kalaf Epalanga Benguela, 1978. Músico dos Buraka Som Sistema. Publicou "Estórias de Amor para Meninos de Cor" e crónicas em várias jornais de referência. Foi um dos fundadores da produtora Enchufada.
Crónicas António Tomaz Luanda, 1973. É ensaísta, académico e professor. Doutorado em Antropologia. É autor de “"O Fazedor de Utopias: Uma biografia de Amílcar Cabral"” e de "“Poligrafia das páginas de jornais angolanos"”.
Crónicas Aline Frazão Luanda, 1988. Cantora e compositora, licenciada em Ciências da Comunicação. Lançou os discos "”Clave Bantu"” e “"Movimento"”, pisa os palcos do mundo com o seu doce apego às palavras. Crónicas Ana Paula Tavares Lubango, 1952. Poetisa, tem trabalhado em áreas culturais tais como Museologia, Etnologia, Património, Línguas e Educação. É membro do Centro de Investigação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Crónicas José Mena Abrantes Malange, 1945. É poeta, dramaturgo e jornalista. Dirige o Elinga Teatro desde a sua inauguração, em 1988. Recentemente publicou o livro "“Caminhos Desencantados". Crónicas José Eduardo Agualusa Huambo, 1960. Escritor e jornalista, tem mais de 30 obras publicadas, traduzidas em mais de 25 idiomas. Escreve para Teatro. É autor do programa da RDP África, “ "A Hora das Cigarras"”.
Caricaturas Nelson Paim Dande, 1992. Artista plástico, iniciou o seu percurso trabalhando em óleo sobre tela, mas foi na ilustração que encontrou a sua linguagem gráfica. É presença habitual em festivais internacionais. Cartoons/Mankiko Sérgio Piçarra Luanda, 1969. Autor de BD e cartoonista, é pioneiro e impulsionador destas artes em Angola. Tem livros publicados e participação em exposições colectivas, obteve um Diploma de mérito do Ministério da Cultura. Crónicas Reginaldo Silva Luanda,1956. Jornalista e membro do Conselho Nacional de Comunicação Social, venceu por três vezes o prémio Maboque de Jornalismo. É autor do blog Morro da Maianga. Editoriais Rede Angola Independente, generalista e pluralista, o RA está aberto às mais diversas correntes de opinião, identificadas pelo nome dos seus autores, cujos argumentos não veiculam necessariamente este jornal. Crónicas João Melo Luanda, 1955. É jornalista e escritor, membro fundador da União dos Escritores Angolanos. Cursou Jornalismo e Direito. Poeta, contista e cronista, foi publicado até agora em Angola, Portugal, Brasil, Itália e Cuba....
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