Ao longo dos últimos quilómetros da costa que leva à foz do Cunene, um cordão de dunas termina abruptamente no mar.
Este país é tão diverso e imprevisto como a paisagem que o molda. Ou o contrário. Bem lá no fundo de Angola onde o sul é sul a sério, está uma das paisagens mais incríveis da nossa terra. Uma baía que não o é, com nome de tigres que tampouco o são. Nesta Baía dos Tigres, árido até à medula o deserto molha os pés no mar que lhe seca a garganta.
O cenário é de filme. Ao longo dos últimos quilómetros da costa que leva à foz do Cunene, um cordão de dunas termina abruptamente no mar. Mar azul, céu imenso, oceano de água e areia em contradição pura e simbiose perfeita. Inóspito, longínquo, este lugar é silêncio absoluto. Uma Angola à parte.
A paisagem litoral do deserto do Namibe é das mais inexploradas do país. É preciso chegar com espírito de aventura suficiente para percorrer o breve corredor que se abre entre a espuma marítima e a base das dunas na maré-baixa. A sombra destas colinas de areia que atingem até 200 metros protege o caminho dos jipes com tracção a quatro rodas e fé em Deus que avançam pela areia molhada a toda a velocidade, em contra-relógio. Antes que o mar regresse.
Por entre as dunas, a uns 80 km da foz do Cunene e do limite sul do país, uma ilha inesperada guarda uma antiga povoação de pescadores. Depois de décadas de abandono, é esqueleto enterrado no deserto (neste ponto, o cenário de filme torna-se ainda mais surpreendente). A povoação da Baía dos Tigres, assim se chama, é hoje um espectro de edifícios: casas, uma escola, um posto sanitário, um hospital, uma delegação marítima e a icónica Capela de São Martinho. As estruturas semi-enterradas compunham a pequena aldeia fundada nos anos 1860 por pescadores vindos em traineiras desde o Algarve, região sul de Portugal. A povoação dividida por uma rua que era também pista de aviação durou pouco mais de 100 anos. Em 1975 a maior parte dos habitantes zarpou. Nos anos seguintes, a ruptura dos canais que traziam água doce desde a foz do Cunene sucumbiu a vila num abandono definitivo.
A história da Baía dos Tigres data de tempos milenares quando o deserto do Namibe, o mais antigo do mundo, começou a formar-se. O lugar foi pela primeira vez descrito em 1485 durante a segunda viagem de Diogo Cão às costas da actual Angola, por ordens do rei “tuga” D. João II. “Manga das Areias”, assim lhe chamou o navegador português.
Entre o século XV e metade do século XIX, data do povoamento daquelas areias, cartógrafos e navegadores assistiram à transmutação periódica que ali ocorre. Cartas e mapas de navegadores de todo o mundo testemunham a transformação cíclica da restinga em ilha, e da ilha em restinga. A última vez que a Baía dos Tigres perdeu a ligação a terra firme foi em 14 de Março de 1962. Neste dia, contam testemunhas da época, uma forte calema com ondas de mais de dez metros rompeu o frágil cordão de areia e transformou-o novamente em ilha. Assim permanece até hoje.
A passagem da Corrente Fria de Benguela por estas águas faz da Baía dos Tigres um excelente lugar para a pesca, à semelhança de toda a província do Namibe. Não é à toa que os ingleses lhe chamavam Great Fish Bay (algo como Formidável Baía de Pesca, em tradução livre) e que os apaixonados dos anzóis aqui venham à procura de tubarões e raias com mais de 200 kg. Para além dos animais marinhos, entre os quais também abundam tartarugas, a Baía dos Tigres é riquíssima em espécies de aves que ali nidificam.
Mas, e os tigres? Na verdade, ao longo dos 35 km da ilha (e dez km de largura), não há rasto de um único tigre. E ao que parece, nunca houve. São várias as teorias sobre a origem do nome deste lugar inóspito. Algumas contam que o efeito do movimento das areias que rodeiam a baía-agora-ilha vestem as dunas de uma pele listada, similar às dos tigres; outras, referem que o lugar estava infestado de hienas e de cães selvagens hábeis em pescar em matilha, que foram confundidos com tigres. Há também a teoria das focas – os “tigres do mar” – que ali passam à boleia das águas gélidas vindas do sul. Por seu lado, a crença popular simplifica as coisas: o nome Baía dos Tigres foi inspirado nos fortes ruídos causados pelo vento que sopram a sul da baía.
Em territórios como este, o nome é, no fundo, o que menos importa. Angola é o nosso santuário, e a Baía dos Tigres é um dos lugares sagrados, tipo ermita escondida à sombra das dunas e virada para o mar. Um fim-de-semana por estas bandas, com a visita inevitável a Tômbua, à cidade do Namibe e à foz do Cunene é descobrir outro lado do nosso país. Árido, salgado e fascinante.
A ilha da Baía dos Tigres situa-se no município do Tômbwa, província do Namibe. Para chegar a este território é necessário ir em jipes todo o terreno, de preferência com quem conheça a região. Fale com o guia sobre a melhor forma de ir até à ilha.
Os jipes são a forma mais segura e eficaz para viajar entre as dunas do deserto | Foto Joana Simões Piedade
Na maré baixa, abre-se um corredor estreito entre as dunas e o mar que abre caminho pelo litoral da província | Foto Joana Simões Piedade
O deserto e a gente | Foto Joana Simões Piedade
Várias casas foram abandonadas por estas paragens. A povoação da Baía dos Tigres está hoje semi-enterrada | Foto Joana Simões Piedade
O deserto do Namibe é o mais antigo do planeta | Foto Joana Simões Piedade
A bio-diversidade do litoral sul de Angola é enorme | Foto Joana Simões Piedade
Flamingos passeiam junto ao mar | Foto Joana Simões Piedade