LAZER

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19.06.2014 • 06h00 • atualizado em 23.06.2014 às 12h36

O Deserto de Samuel Aço

Esta terra é seca e tem marcadas, como impressão digital, estranhas e velhas sendas.

Por Pedro Cardoso.
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Sem bilhete, sem transporte nem estradas. Esta viagem é feita de palavras. Passou-se há uns quantos anos, à mesa de um restaurante de Luanda. A guiar-me no tempo, no espaço e na imaginação, Samuel Aço. O rec do gravador deu o mote a uma jornada pelos trilhos milenares do deserto do Namibe. Recupero este diálogo em homenagem ao homem que será sempre lembrado como “o antropólogo do deserto”. Samuel Aço foi agora embora. Partiu seguramente para sul, pelas veias do mais antigo deserto do mundo. Segue, passo a passo, a rota dos mercadores da terra seca.

No caminho entre Onkukua e o Iona, o deserto do Namibe é particularmente estéril. Não há árvores novas, não cresce capim. A terra é seca e tem marcadas, como impressão digital, estranhas e velhas sendas. Sem data de criação, são caminhos antigos por onde passam os comerciantes do deserto, mercadores tradicionais que se deslocam a pé, sozinhos ou acompanhados por um burro que transporta a carga. Em percursos que vão até os 300 km, palmilham a região. Levam aos kimbos mais escondidos cobertores, tabaco, aguardente. Em troca, recebem cabritos, ovelhas (às vezes) e, muito raramente, cabeças de gado. Ali, dinheiro é papel e metal sem sentido.

Este é o deserto de Samuel Aço, em vida silenciosa. Um território que parte da cidade do Tombwa, antigo Porto Alexandre, estende-se até à capital do Namibe e à fronteira sul de Angola. Atravessa o rio Cunene e entra na vizinha Namíbia. Sem fronteiras marcadas, estes trilhos são os jornais do deserto. Conta-se que, ao lê-los, é possível saber quem por ali passou, há quanto tempo deixou as pegadas, e se por ali continua.

Em 1996, Samuel Aço começou a contar estas histórias de pés calejados em terra ressequida. Foi por essa altura que também entendeu a dimensão simbólica das longas viagens dos mercadores em direcção ao sul. “Quando comecei a fazer este trabalho, reparei que os comerciantes que andavam a pé (na altura ainda não havia camiões) levavam uma mercadoria exígua, o que dava a entender que aquela actividade existia por algo mais que o mero interesse comercial.” Na base deste nomadismo cíclico, podem estar valores como “comunicação e encontros de família”.

O território do deserto é habitado pelos Hereros, sobretudo os sub-grupos Himba e Tjimba, e os Mucubais, estudados por outro grande antropólogo angolano recordado com saudade – Ruy Duarte de Carvalho. No entanto, o grosso da população da região do deserto mais próxima da costa, onde as dunas terminam no mar, já ali viviam antes dos Bantus chegarem ao que é hoje Angola. São os Vatua, povo que se subdivide etnicamente em Kwepes, Kwisi e Kurocas. Distinções há muito conhecidas, embora não se conheça devidamente as diferenças entre uns e outros. Deserto-caldeirão da angolanidade.

Mas esta terra não é só areia e rocha impossível. Nem é apenas o cartão-postal da praxe, com as incríveis welwitschia mirabilis, espécie autóctone do deserto do Namibe que, dizem, pode chegar a viver mais de um milénio. O deserto, na sua essência, é sobretudo resistência (e como é bom conhecer a essência dos lugares, mais além da fotografia!). No meio de um lugar aparentemente inóspito e impossível, os seus habitantes vivem normalmente, com meios muito rudimentares. Gerem água e pastagens de forma exemplar, criam gado e sabem como protegê-lo da maior parte das doenças. Transformam em casa acolhedora lugares que “para a maioria de nós não servem de nada”, notou Aço.

Qual é o segredo? Não há nenhum segredo, é pura lógica e bom senso. Como comentou o kota Aço na conversa naquele jango em plena Mutamba, a (para nós surpreendente) forma de vida destas comunidades deve-se a que ” souberam transmitir e preservar a memória e sabedoria ancestrais ao longo das gerações”. Um exemplo magnífico que, infelizmente, começa a entrar em terreno movediço, como as dunas paradisíacas do Namibe. “A transmissão da cultura, entre este povos, está em risco. Há cada vez menos condições para a preservação dos conhecimentos ancestrais”. Receios de Aço.

Para tentar entender tudo o que vem lá de trás, dos primórdios destes povos, o antropólogo criou, em 2008, o Centro de Estudos do Deserto (CE.DO). Fica em Njambasana. Comuna do Kuroca, município do Tombwa. Província do Namibe. Chega-se lá, passando o fundo da picada no meio do nada (peça indicações precisas no Tombwa). Durante os últimos anos, o CE.DO foi um templo-abrigo de antropólogos, artistas, cientistas, ambientalistas, historiadores, autoridades e curiosos que quiseram conhecer de perto a dinâmica deste lugar incrível – com as suas areias, as suas águas intermitentes, as suas gentes. Aço transformou esta aldeia no estuário do rio Curoca no ponto central do grande Namibe. É a coordenada mais precisa da vastidão gretada deste deserto que, dizem os especialistas, é o mais antigo do mundo (terá entre 55 e 80 milhões de anos).

Vá até lá. Tome Njambasana como ponto de partida e parta para sul, em direcção às lagoas quentes de Pediva e à foz do Cunene, atravessando o Parque Nacional do Iona. Os caminhos já estão marcados. Basta seguir as pegadas milenares dos comerciantes do deserto. Siga-lhes também o sol sobre as suas cabeças, siga-lhes as noites. Reconheça esta Angola que Samuel Aço nos fez descobrir, e dê-se conta que o país não é apenas o que vê da janela do seu prédio.

Com este roteiro-homenagem amarrotado e dobrado em quatro no bolso, caminhe pela estepe e entre no deserto inacessível para a maior parte de nós. Lá no fundo do horizonte, liquefazendo-se nas ondas de calor, veja passar as silhuetas dos homens que palmilham a terra seca. Avance com cuidado, para que o tempo e o espaço não se distorçam. Assim, lentamente, como manda a lei sagrada do deserto.

 

*Roteiro escrito com base na entrevista de Samuel Aço à Revista Austral nº 69.

Deserto do Namibe

O deserto é cruzado por caminhos de mercadores © Carlos Lousada
O Namibe é considerado o deserto mais antigo do mundo © Carlos Lousada
Os Himbas são uma das etnias que fizeram do deserto a sua casa © Carlos Lousada
Nascer do sol em pleno deserto do Namibe © Carlos Lousada
Um órix cruza a vastidão do Parque Nacional do Iona © Carlos Lousada
A Welvitchia Mirabilis é um dos maiores símbolos do deserto do Namibe © Carlos Lousada
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