Sem resistências, o rio que dá nome à província entrega-se de braços abertos ao oceano que banha Angola de ponta a ponta.
De volta ao Namibe. No extremo litoral sul de Angola, a foz do Cunene. Fio de água que vem desde o manancial inesgotável do Planalto Central e que, com a força das areias que carrega até ao mar, é o rio mãe do Deserto do Namibe.
Serpenteando entre o deserto de areia e falésias rochosas de centenas de metros de altura, o Cunene dá o último respiro num outro deserto de água salgada. Sem resistências, o rio que dá nome à província vizinha do Namibe, entrega-se de braços abertos ao oceano que banha Angola de ponta a ponta.
O Cunene nasce a 1840 metros de altitude, em Boas Águas, no Planalto Central, e termina lá em baixo, 1100 km depois. Desde as terras altas do centro de Angola, berço gigante de tantos rios, o Cunene percorre um caminho longo, passando pelo Huambo, Humpata, Matala, Cassinga. Avança terra adentro até às Quedas do Ruacaná, onde, depois de uma queda vertiginosa de 120 metros, gira inesperadamente em direcção ao mar. A partir deste ponto e até ao Mulondo, já junto à foz, o Cunene transforma-se na fronteira natural entre Angola e a Namíbia.
A equação rio + deserto + mar = a uma paisagem fora de série. Em pleno Parque Nacional do Iona, a foz do Cunene guarda um potencial turístico que começa a ser descoberto por mais e mais gente. À volta deste ponto final de Angola, os lugares de interesse são muitos, desde o próprio Deserto do Namibe, até à Baía dos Tigres, ali pertinho. Ou as várias quedas de água e rápidos que conformam o agitado percurso final, ao longo do qual o Cunene se encrava, agitado, entre os canhões rochosos e profundos de Tchamalinde e Cafema. Se quiser ver o rio com toda a força, visite-o em Março ou Abril, os meses em que o Cunene tem um maior volume de água.
A apenas seis quilómetros da foz, nas zonas habitadas por flamingos, encontra-se o antigo povoado onde se instalaram as bombas de água que abasteciam a Baía dos Tigres, antes do istmo da península se romper e transformar na ilha actual. Hoje, é mais um povo fantasma ameaçado pelas dunas do deserto. Um espectro mais numa terra de uma vastidão desnorteante e de voz antiga. O Namibe é considerado o deserto mais antigo do mundo, com qualquer coisa como 55 milhões de aridez.
Quando observar o rio, ali sentado junto à foz, pense que ele nem sempre foi assim. Na verdade, há milhões de anos o “Antigo Cunene”, como lhe chamam os especialistas, desaguava na planície do Chitato, onde acabava por se evaporar. Num determinado momento, contam, um rio de menor dimensão que corria em direcção ao mar alcançou-o, levando-o à boleia até ao Atlântico, e definindo o leito actual.
Os segredos do Cunene vão além da sua origem. Na verdade, nele começa a vida das dunas do Deserto do Namibe. Em frente à foz, as areias que o rio carrega acumulam-se, antes de serem projectadas para a costa pelas ondas. Uma vez depositadas em terra firme, as areias são levadas pelo vento, acabando por formatar uma paisagem única em Angola e no mundo – o deserto a beijar o mar. Este fenómeno está também na origem da língua de areia da Baía dos Tigres.
Lá nos confins de Angola, um tesouro especial. O Cunene convida a conhecer o seu ponto final, num deserto de mil e um segredos e com tanto para mostrar, nessa junção rara de água doce, sal e aridez com milhões de anos.
Siga a costa sul do Namibe, a partir do Tômbua. Há excursões guiadas, tanto à Baía dos Tigres, como à Foz do Cunene.
O rio Cunene é fronteira natural entre Angola e a Namíbia | Joana Simões Piedade
Nos últimos quilómetros, o rio espraia-se no Atlântico, depois de passar por canhões rochosos | Joana Simões Piedade
O Cunene transporta a areia que dá origem às dunas do Deserto do Namibe | Joana Simões Piedade
O rio nasce no Planalto Central e tem cerca de 1100 km | Joana Simões Piedade
O Cunene encontra-se em pleno Parque Nacional do Iona | Foto Joana Simões Piedade